sábado, 13 de fevereiro de 2010

VÍBORA, O ANTÍDOTO À MONOTONIA


Joel Siveira era de Lagarto - cidade do interior sergipano onde, ele mesmo informava, Lampião jamais tivera coragem de entrar. - Eis aí um homem sensato, Lagarto não é lugar para entrar, mas para sair -. E foi o que ele fez, mudando-se para o Rio, aos 26 anos, para se juntar alguns dos mais brilhantes intelectuais, jornalistas, políticos e barões da imprensa de seu tempo e revolucionar o jornalismo feito no Brasil. Morreu em 2007, aos 88 anos, com a saúde bastante debilitada. Já não andava, mas mantinha a lucidez de 1937, ano em que chegou ao Rio a bordo do vapor Itagiba. Seu primeiro emprego foi na Dom Casmurro, publicação criada por Brício de Abreu e Álvaro Moreyra que reunia entre seus colaboradores nomes como Carlos Lacerda, Oswald de Andrade e Graciliano Ramos. Dom Casmurro seria o aquecimento para o primeiro bote que a víbora daria poucos anos depois.

Em 1938, Joel começaria a colaborar com o semanário Diretrizes e, no começo dos anos 40, publicaria a reportagem que o colocaria no primeiro time da imprensa. Grã-finos em São Paulo era um irônico, mordaz e agressivo texto sobre o cotidiano da alta sociedade paulista. Ele escrevia: era uma festa somente para milionários, e sobre todos aqueles sobrenomes repousava a força paulista de hoje. Por detrás dos sobrenomes, há um mundo incrível: centenas de fábricas, milhares de chaminés, milhares de operários. Era um grupo terrível, avassalador. Com um gesto de mão, qualquer um deles poderia me aniquilar, me tanger longe, lá na rua. Mas os milionários apenas sorriam. Sorriam e bailavam com as mulheres, todas muito belas.

A ridicularização da São Paulo festiva agradou a Getúlio Vargas e fez com que Joel fosse convidado por Assis Chateaubriand para fazer parte dos Diários Associados. Surpreendentemente, o repórter não ficou feliz com a proposta e recusou o emprego. Mas o mesmo Getúlio Vargas que antes o admirava passou a detestá-lo, depois de uma outra reportagem em que Joel pedia que o país voltasse à democracia, destacando a frase "O governo deve sair do povo como a fumaça da fogueira". O resultado é que Diretrizes acabou sendo fechada, não restando ao jornalista outra opção senão a de aceitar o convite de Chatô.

Foi o dono do Diários Associados o primeiro a chamar Joel de víbora, e o novo emprego revelaria um Joel ainda mais venenoso. Sua primeira grande missão foi cobrir a II Guerra Mundial, e o diálogo entre patrão e empregado é puro non sense. Chamado por Chatô recebeu a seguinte ordem: senhor Joel, você deve ir para a Itália. Vá cobrir esta guerra. Mas vá e não me morra! Anos depois recordando esta história numa entrevista, o repórter que o questionava entrou no espírtio e perguntou: E o senhor não morreu, né?. Eu? Eu não! Se eu morresse, o homem me despedia!

No livro O Inverno na Guerra confessa seu retorno como homem ainda mais cético, mais maduro. Ele incorporou sentimentos ferrenhos a seus textos. Chatô, o barão da imprensa lhe fez uma encomenda, seu primeiro teste de retorno ao Brasil. O dono de Diários Associados estava em guerra com Chiquinho Matarazzo, milionário paulista que havia pedido de volta o prédio que os Associados ocupavam no Viaduto do Chá. A vingança veio na forma de texto com A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista, reportagem publicada em 1945 sobre o casamento do milionário João Lage com Filomena, filha do conde Francisco Matarazzo Jr. A cobertura do casamento vinha acompanhada do relato do enlace de um casal de operários, trabalhadores justamente das indústrias Matarazzo.

Além do poder da riqueza, Joel foi íntimo do poder político. A partir de Getúlio Vargas - com quem teve apenas um contato -, Joel conviveu com todos os presidentes. Não era de fazer amizades, mas conseguia manter um bom trânsito. E, a partir dos anos 50, trouxe para a análise política o seu faro de repórter investigativo.

O estilo inaugurado e aperfeiçoado por Joel era um símbolo das melhores vertentes de várias escolas de jornalismo. Aquilo que a partir dos anos 60 convencionou-se chamar de Novo Jornalisimo já era exercido pelo repórter duas décadas antes: texto direto e claro, recheado de observações sagazes e opiniões incisivas. Seu legado está no trabalho de dezenas de jornalistas, alguns inspirados nele, como Fernando Morais e Geneton Moraes Neto.

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